Aug 252010
 

book development as freedomEm 1999, Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, lançou o livro “Development as Freedom” (Desenvolvimento como Liberdade).

Na época, Kofi Annan, secretário geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) comentou: “… Mostrando que a qualidade de nossas vidas deveria ser medida não de acordo com nossas riquezas, mas com nossa liberdade, … [Amartya Sen] revolucionou a teoria e a prática do desenvolvimento”.

Inicialmente, o livro explora os significados de liberdade, desenvolvimento e os fundamentos da justiça, para então aprofundar-se em exemplos, casos e análises que demonstram que de fato, a liberdade pode representar muito melhor o nível de desenvolvimento de um povo do que seu nível de riqueza (mais comumente medido pelo PIB).

Para explicar a importância da informação e dos princípios adotados nas decisões de desenvolvimento, Amartya Sen usa o dilema de Annapurna que busca contratar, da maneira mais correta possível, alguém para limpar seu jardim e considera três candidatos (que executariam exatamente o mesmo trabalho, com a mesma qualidade ao mesmo preço):

  1. Dinu é o mais pobre e, considerando que não há nada mais importante de ajudar aos pobres, ele seria a contratação correta -> princípio 1: igualdade econômica
  2. Bishanno empobreceu recentemente e é o mais triste. Portanto, Annapurna considera que ele é quem ficaria mais feliz com o trabalho (já que Dinu e o outro candidato já estão mais acostumados com a pobreza) -> princípio 2: utilidade (neste caso, a felicidade)
  3. Por outro lado, Rogini usaria o dinheiro para curar-se de uma doença crônica e, apesar de não ser ter tão pobre quanto os outros, é o que mais se beneficiaria da oportunidade -> princípio 3: liberdade. A doença limita a liberdade de Rogini em ter uma melhor uma qualidade de vida livre da doença

Baseado nesta parábola, Amartya Sen explica que, em geral, as teorias econômicas e de desenvolvimento baseiam-se nos princípios 1 e 2, e portanto, não consideram que a limitação das liberdades dos indivíduos devido a falta de justiça, de democracia, de mecanismos de mercado (para haver compartilhamento de benefícios e oportunidades), de direitos humanos e de escolha, de igualdade de gênero e da falta de capacidades humanas devido à pobreza (tanto, a endêmica persistente, como a momentânea decorrente, por exemplo, de epidemias, fome, acidentes climáticos e mudanças de regime)também limitam o desenvolvimento.

Amartya Sen elabora sobre o capital humano (que trata das habilidades do homem para produzir) vs. a importância das capacidades humanas, pois estas são relevantes para:

  • Atingir o próprio bem-estar e liberdade
  • Influenciar mudanças sociais
  • Influenciar a produção econômica

Além disso, Amartya Sen reforça que para se superar a pobreza e, portanto, permitir a todos o pleno uso de suas liberdades e capacidades, são essenciais:

  • Infra-estrutura adequada, especialmente, em educação, saúde e distribuição de terras
  • Regimes democráticos
  • E a garantia dos direitos das mulheres, refletindo diretamente na capacidade de promover a sobrevivência das crianças e de reduzir as taxas de fertilidade. Fatores que impactam na prosperidade econômica, mas também, na liberdade e na qualidade de vida das mulheres, especialmente as mais jovens (que tão cedo já precisam prover aos filhos…)

O livro é brilhante e impossível de descrever, portanto, não deixe de ler:

Development as Freedom, de Amartya Sen, editora Anchor Books, 1999, USA.
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Sobre a autora:

Sueli Chiozzotto é formada em engenharia de produção pela Escola Politécnica da USP, tem MBA pela Universidade da California em Berkeley e é sócia da MGM Partners, onde desenvolve projetos nas áreas de sustentabilidade, responsabilidade e investimentos sociais para empresas, fundações e ONGs.
 August 25, 2010  Posted by on August 25, 2010 Base da pirâmide Tagged with: , , ,  Add comments

  3 Responses to “Livro de Amartya Sen: Desenvolvimento como liberdade”

  1. Suelly, parabéns pelo Blog e Lembrança! Pois a visão do Amathya Sen sobre desenvolvimento é fantástica e uma das mais inclusivas, pois ele coloca foco em assegurar equidade e permitir assim as condições para que as pessoas façam suas escolhas.

    Em complemento a essa leitura, me lembro de uma frase do educador mineiro Antonio Gomes da Costa: “Os homens são as oportunidades que tiveram e as escolhas que fizeram”.

  2. Olá Fabiano, obrigada! Também adorei a frase, e vamos torcer e trabalhar para que as oportunidades cheguem a todos. Abraços, Sueli

  3. O pensamento do Sen, atinge um estado supremo do exercicio da cidadania de um povo.
    Para mim um povo so desenvolve quando de facto esta gosando da sua liberdade. Onde nao ha Liberdade nao ha desenvolvimento.

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