Jan 132015
 

SharingO consumo colaborativo baseia-se em um conceito simples: alavancar valor de ativos que não estão sendo totalmente explorados por seus donos.  Um dos programas de pesquisa da University of Innsbruck  busca identificar modelos de negócio inovadores enquanto criando valor para a comunidade e dentro deste contexto estudou o compartilhamento de ativos.  Este estudo foi a base para o artigo do  MIT Sloan Management Review sobre o tema.  

Sem dúvida um conceito com menor foco no consumo e maior foco na troca tem um menor impacto nos recursos naturais, tornando-o um negócio que contribui para a sustentabilidade. Isso mesmo, este conceito é explorado como um negócio e, portanto, pode tornar-se uma oportunidade para empresas e investidores.

De acordo com o artigo, uma pesquisa da PricewaterhouseCoopers revelou que o mercado global de produtos e serviços compartilhados, ou de consumo colaborativo, poderá chegar a US$335 bilhões em 2025. Além disso, este mercado tem apresentado um rápido crescimento nos últimos anos.

De fato, o consumo colaborativo é um mercado que não deve ser subestimado pois atende à várias necessidades do consumidor como: conveniência, redução de gastos, menor impacto ambiental e até mesmo, o benefício do usar algo que potencialmente, está além de sua capacidade de compra. Além disso, é atraente para aqueles preocupados com o impacto do consumo no meio ambiente, e para pessoas que querem a criar, participar e/ou contribuir para experiências novas e gratificantes.

Há vários tipos de compartilhamento:

  • De produtos ou serviços adquiridos por uma empresa privada para uso por seus clientes;
  • Revenda, quando pessoas com interesse similares adquirem os produtos uma das outras;
  • Estilo de vida colaborativo onde tempo, espaço, dinheiro e/ou produtos e serviços são compartilhados por um grupo de pessoas, especialmente, via internet (por exemplo: compartilhamento de jardins e a oferta de serviços e consertos para residências). 

O estudo indicou que as empresas podem aproveitar (e tem aproveitado), deste novo mercado de várias maneiras, por exemplo:

  1. Vender a utilização do produto ao invés de sua posse:
    • O Hilti Group do país de Liechtenstein não somente vende como também aluga o uso de seus equipamentos, sistemas e serviços para construção. Essa gestão compartilhada ajuda a reduzir custos e manter os prazos das obras dos clientes. Mais ainda, através deste modelo de negócios inovador e baseado no consumo colaborativo, a empresa conseguiu alavancar novas receitas provindas do aluguel e gestão de equipamentos e ferramentas.
    • A Daimler em parceria com a Europcar criou em 2008 a car2go provendo alternativas de aluguel de veículos para estabelecimentos comerciais e pessoas físicas, que escolhem quando e quais veículos usar, pagando somente pelo período utilizado. O serviço de compartilhamento de carros começou na Alemanha e hoje está presente em mais de 29 cidades da Europa e da América do Norte, com mais de 800 mil membros.  Peugeot e BMW seguiram a tendência e também lançaram seus sistemas de compartilhamento de veículos, respectivamente o MU na França e o DriveNow (que começou em 2011  na Alemanha e atualmente também este presente em Londres e São Francisco).
    • A Avis, empresa de aluguel de automóveis, adquiriu a Zipcar, negócio criado há mais de dez anos para compartilhamento de carros. Atualmente, funciona em mais de 50 cidades da América do Norte e Europa e em mais de 100 universidades americanas.
  2. Apoiar consumidores na revenda de produtos:
    • Em 2010 a Ikea, empresa de móveis e utilidades, da Suécia, através de uma plataforma de internet criou um modelo de negócios para ajudar seus clientes a revender produtos Ikea usados. Apesar de ser um serviço grátis, a Ikea beneficia-se do apoio na destinação de seus produtos, reduzindo pelo menos inicialmente, o impacto ambiental do descarte. Além disso, a revenda abre espaço para a compra de novos produtos Ikea pelos clientes.
    • A Patagonia, empresa de roupas e acessórios americana, fez uma parceria com o eBay em 2011 para que os consumidores pudessem comprar e vender online produtos Patagonia usados . O novo modelo de atuação permitiu maior visibilidade da marca tanto na Internet como no mundo real com as peças revendidas. Além disso, há o potencial para redução de impacto ambiental. Mas, principalmente, a empresa demonstrou uma iniciativa  de reduzir o apelo de moda/consumo de seus produtos, contribuindo para a orientação de negócios com foco na sustentabilidade.
  3. Explorar recursos e capacidades não utilizadas:
    • Maschinenring, associação entre empresas florestais e relacionadas à agricultura, que permite o uso compartilhado de equipamentos, busca e compartilhamento de profissionais para fazendas e outros clientes e a oferta de serviços (paisagísticos, de limpeza de neve, de aquecimento, etc.). Este modelo permite a redução de custos de aquisição, a melhor utilização de mão-de-obra (inclusive provendo renda para fazendeiros e pequenos produtores rurais nos períodos de entressafra), e a obtenção de receitas com serviços especializados compartilhados por uma rede de associados;
    • LiquidSpace, este website oferece o compartilhamento de espaço de escritórios nos Estados Unidos, Austrália e Canadá, unindo a necessidade de donos de espaço de melhorar o aproveitamento de seus escritórios e reduzindo custos, e a de clientes que podem (e/ou precisam) trabalhar em escritórios próprios. Este modelo de negócios é viabilizado não somente pelos espaços disponíveis e por sua demanda, mas também pelo acesso a tecnologias móveis e sociais.
  4. Prover serviços de conserto e manutenção:
    • FedEx TechConnect oferece consertos de dispositivos eletrônicos baseado no expertise adquirido pela empresa para consertar equipamentos utilizados por seus próprios entregadores. O serviço pode ser realizado nas lojas FedEx e pelos entregadores regulares da empresa. Desta forma a FedEx capitalizou dois recursos disponíveis em um novo modelo de negócios sem grandes investimentos: expertise para consertar os equipamentos e recursos humanos capazes. O CEO desta unidade da FedEx estima que o negócio tem potencial para atingir US$15 bilhões.
    • Best Buy’s Geek Squad, o Geek Squad foi adquirido pela Best Buy em 2002 e através da oferta de serviços de assistência e reparos em produtos eletrônicos contribui, não somente, para os lucros da Best Buy (loja americana de eletrônicos), como também acaba promovendo a venda de novos equipamentos, upgrades e serviços. Além disso, a tranquilidade proporcionada aos clientes que compram na loja (devido ao acesso aos serviços do Geek Squad), potencialmente, contribui para maiores vendas.
  5. Usar o consumo colaborativo para atingir novos consumidores:
    • DM, uma farmácia austríaca, participou de festas de trocas de roupas e acessórios em Salzburg para oferecer a experimentação grátis de seus produtos de maquiagem. Neste caso o objetivo não foi a venda do produto em si, mas a aquisição de novos clientes, que simpatizassem com a ação da empresa (que incluiu marketing na internet e maquiadores profissionais na festa), e seus produtos. Além disso, a empresa teve maior visibilidade no campo da moda e ganhou interesse entre potenciais novos clientes.
  6. Desenvolver modelos de negócio inovadores desde a concepção:
    • The Wine Foundry, permite que amadores e profissionais produzam seu próprio vinho sem ter uma vinícola, provendo as ferramentas e assistência para a produção. A empresa oferece desde a seleção da uva até a confecção do rótulo. Este modelo totalmente inovador e desenvolvido do zero, permite que a empresa capitalize e materialize o desejo de seus clientes de tornarem-se produtores de vinho.

No Brasil, alguns modelos de consumo colaborativo já existem, os mais comuns (e, alguns, bem antigos), são: serviços de aluguel de bicicletas, incubadora de projetos, troca de livros via internet, troca / compra de roupas usadas (brechós), compartilhamento de espaços de escritório e couchsurfing (onde estadias residenciais são oferecidas gratuitamente para viajantes).

Porém, como vimos, há muito espaço para explorar a economia do compartilhamento enquanto alavancando receitas e lucros, ganhando visibilidade e novos clientes através de um modelo de negócio inovador e mais sustentável, baseado nos ativos existentes, no expertise do negócio e em novas tecnologias.

Leia o artigo completo da MIT Sloan Management Review em inglês em: Adapting to the sharing economy

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Sobre a autora:

Sueli Chiozzotto é formada em engenharia de produção pela Escola Politécnica da USP, tem MBA pela Universidade da California em Berkeley e é sócia da MGM Partners, onde desenvolve projetos nas áreas de sustentabilidade, responsabilidade e investimentos sociais para empresas, fundações e ONGs.

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